sábado, 11 de maio de 2013

Os Lirios do Campo e a Vocacao Ministerial


Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem.
Mateus 6.28

Muitos vivem em grandes cidades e, por isso, jamais contemplam os lírios do campo; muitos habitam no campo e passam por eles todos os dias sem considerá-los sequer uma vez. Ah! quantos de fato contemplam os lírios do campo como Jesus contemplava?
Søren Kierkegaard

Hoje quero pensar com vocês uma comparação entre os lírios do campo e aqueles que foram vocacionados para o ministério cristão. Observem: minha intenção não é apresentar uma exegese de Mateus 6.28, mas apenas comparar os lírios do campo com os vocacionados.

Um dia Jesus pediu aos seus discípulos que contemplassem os lírios do campo, que considerassem como eles crescem. Acredito que aqueles que seguem a Jesus, como vocês e eu, e que são, por isso, seus discípulos, são como lírios do campo. Mas, o que é ser como um lírio do campo?

Ser como um lírio do campo é ser consciente de que somos apenas mais um entre muitos. O lírio do campo não é uma planta rara. Pelo contrário, é uma planta comum dentre tantas outras. O lírio não tem nada de extraordinário. Não possui uma “unção especial” que lhe dá um maior destaque diante das outras plantas do universo. Não. O lírio do campo não é nem jamais será uma “personalidade do ano”. Ele é apenas uma flor que se perde entre as muitas outras flores que crescem no campo. Por causa disso, nenhum lírio do campo disputa um lugar de destaque acima de outros lírios. Não existe nenhum lugar para o lírio que seja acima dos seus iguais.

Vivemos num contexto de profundo personalismo, de exacerbada superestimação de si mesmo. Cada um quer o seu lugar de destaque no arraial evangélico. A consciência de ser mais um entre muitos é quase sempre considerada de um ponto de vista negativo, justamente porque nossa cultura é a cultura do destaque, do espetáculo. Nossa cultura é, de fato, a cultura da fama. Todo mundo quer ser uma celebridade. Todo mundo quer alcançar os píncaros do reconhecimento humano. Ninguém quer ser apenas mais um. Por isso, todo cuidado é pouco, pois não faltarão para vocês palavras do tipo: “Você não pode ser mais um! Você precisa imprimir sua personalidade em seus liderados! As pessoas precisam notar que você chegou! Você é o cara! Seu ministério tem que ter a sua cara! E quem não tiver na visão que caia fora! Você precisa aparecer mais, tem que estar em evidência! Chega de anonimato, você não pode ser mais um”.

Ser mais um discípulo de Jesus, mais um servo do Senhor, mais um instrumento de suas mãos, mais uma “voz que clama no deserto”, infelizmente, não está na moda dos pseudo-evangélicos que pululam em nossos templos. Irmãos, se queremos alcançar essa consciência de que somos mais um, precisamos vencer a tentação do personalismo, da superestimação de si mesmo, tão valorizados em nossa cultura do glamour.

Ser como um lírio do campo é ser consciente de que somos totalmente dependentes da graça de Deus. O lírio do campo não tem um jardineiro, digo, um jardineiro humano. Ele é do campo, é do mundo. Nenhum homem cuida dos lírios do campo. Eles crescem e florescem sem que sequer um homem regue uma só gota de água em sua raiz! A sobrevivência do lírio está completamente a mercê de Deus — de Deus apenas. Ele é o seu jardineiro. Ele é quem cuida dos lírios do campo. Os homens apenas podem, se quiserem, contemplá-los. Os homens podem até ver a beleza de um lírio e se extasiarem por isso, mas nenhum deles pode olhar para um lírio do campo e dizer: “sua beleza depende dos cuidados que tenho por você!”. A verdade tem de ser dita: os lírios do campo estão aí, belos e frondosos, e certamente a despeito de os homens sequer notarem sua existência.

Hoje em dia alguns têm dito que devemos viver como se Deus não existisse, como se a sua mão não estivesse regendo cada parte do universo. E, pasmem, eles não são ateus! São cristãos professos, mas que desistiram de viver como os lírios do campo, de viver com a consciência de que tudo está sob o governo de Deus. Se queremos ter a consciência dessa completa dependência da graça, temos de ver em tudo a graça e a providência divinas. Quero desafiar você a crer que ainda que alguém, um homem qualquer, possa te ajudar demasiadamente em seu ministério, ainda assim ele o fará por causa da graça de Deus. Quero desafiá-lo a ver a mão de Deus em todas as coisas.

Ser como um lírio do campo é ser consciente de que nosso crescimento é sempre resultado da obra de Deus em nós. A propósito, Jesus não disse meramente “Olhai os lírios do campo”. Na verdade, ele disse “Olhai como eles crescem”. E, como crescem os lírios do campo? Crescem sem serem percebidos pelos homens. Vocês devem estar pensando: “Ah! Como deve ser triste a vida de um lírio! Crescer sem ser percebido pelos homens...”, deixe-me frustrar mais uma vez seus pensamentos. O lírio não vive triste nem angustiado por causa da ignorância dos homens. Se um lírio pudesse falar, acho que ele diria: “Desejar que o homem perceba meu crescimento é como desejar que o quadrado seja redondo. Não dá! Não posso culpar os homens por não perceberem meu crescimento, simplesmente porque eles não podem, não têm condições físicas para isso. Mesmo que eles quisessem não poderiam perceber meu crescimento”. Em contrapartida, é inegável o fato de que os homens conseguem perceber que o lírio do campo cresce. Porém, o que eles não conseguem é percebê-lo enquanto ele está crescendo. Quando a professora de ciências ensina aos seus alunos sobre o crescimento dos seres vivos, geralmente, ela ensina a partir da experiência do grão de feijão envolto em um algodão ensopado de água. A professora não pede que seus alunos fiquem olhando, e que, num passe de mágica, nascerá um pezinho de feijão! Não. Os alunos têm de esperar o pezinho de feijão crescer a cada dia. Ninguém percebe o pezinho de feijão crescendo, percebemos etapas de seu crescimento. É como um filho que a gente vê todos os dias, e, quando nos damos conta, ele já cresceu.

Para sermos como um lírio, precisamos não só saber, mas, sobretudo, aceitar que o homem não pode perceber nosso crescimento. E por sabermos e aceitarmos isso, não vamos ficar por aí dizendo cobras e lagartos porque os homens não percebem nosso crescimento. Quando somos como o lírio, absolvemos os homens da culpa. Que culpa? A culpa de não serem capazes de perceber que crescemos. Ora, os homens não podem ser cobrados por aquilo que não podem fazer! O lírio do campo crescerá quer os homens percebam quer não. Ou seja, quem vive como o lírio do campo, vive consciente de que não há nenhum vínculo de causa e efeito entre a percepção dos homens e o seu crescimento. Lírios crescem a despeito da percepção dos homens. Você, como um lírio do campo, irá crescer a despeito da ausência dos homens ou do louvor de seus companheiros. E, quando isso de fato acontecer, não se esqueça: você é como um lírio. Lírios crescem! Isso basta? Não. Em contrapartida à atitude dos homens, é preciso lembrar que Deus acompanhará seu crescimento a cada instante. Por isso, quem vive como o lírio descansa sabendo que Deus não apenas quer, mas de fato pode notar seu crescimento. Para o lírio, basta que Deus o contemple. O olhar de Deus é suficiente (Sl 139.1).

Portanto, para ter consciência de que o crescimento é obra de Deus, precisamos quebrar o vínculo de causa e efeito que estabelecemos entre o nosso crescimento e a percepção dos homens.

Finalmente, ser como um lírio do campo é ser consciente de que nossos esforços para cumprirmos nossa vocação ministerial são inúteis. Jesus disse que os lírios do campo “não trabalham e nem fiam”. Quem vive como lírio não produz, é produzido; não faz, é feito; não modela, é modelado; quem é como o lírio do campo não quer ser artefato, quer ser obra de Deus. O artefato é aquilo que os homens produzem a partir de algo. A obra de Deus é aquilo que o Todo-Poderoso produz a partir do nada, a partir de sua própria vontade. O artefato é improviso; a obra divina é criação.

Assim, se queremos ser conscientes da ineficácia de nossos esforços, precisamos baixar a guarda. É preciso que sejamos vulneráveis à vontade de Deus, porque a nós cabe fazer o que Deus quer que façamos, e a Deus cabe fazer o que ele quer que sejamos. Então, que sejamos a vontade de Deus!

Deus nos abençoe, meus irmãos.

Jonas Madureira

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